Síndrome vasoplégica após cirurgia cardíaca : vasopressina X norepinefrina - O que há de “novo” no manejo dos pacientes?.
Anesthesiology 2017; 126:85-93
Sabe-se que a síndrome vasoplégica é uma frequente e grave complicação ocorrida em pacientes
que são submetidos à cirurgia cardíaca. Até hoje, apenas pequenos estudos e com
baixo poder metodológico, estão disponíveis sobre o tratamento desses doentes.
O artigo
intitulado como “Vasopressin versus Norepinephrine in Patients with Vasoplegic
Shock after Cardiac Surgery: The VANCS Randomized Controlled Trial”,
desenvolvido no
Instituto do coração da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, e publicado em janeiro de 2017 na
Anestesiology, propôs-se a comprovar a superioridade
da vasopressina em relação a norepinefrina nos pacientes que desenvolveram choque
vasoplégico, após 48 h da cirurgia cardíaca. Os autores sugeriram em tal
estudo, que o uso da vasopressina estaria associado a uma menor taxa de
mortalidade e a redução de complicações graves como : AVC, LRA, infecção do externo,
reoperação e tempo de ventilação mecânica. Secundariamente, avaliaram incidência
de Infecção, choque séptico, arritmias, alterações nas variáveis
hemodinâmicas e necessidade de uso adicional de dobutamina ou outros agentes
vasoativos, incidência de isquemia mesentérica aguda, infarto agudo do
miocárdio e a duração da permanência hospitalar e em UTI.
Ocorre que, a
metodologia utilizada e os resultados sugeridos, são controversos.
Inicialmente, os autores afirmam que o VANCS possui um poder de 80% para
encontrar uma diferença absoluta de 30 % entre as drogas e um erro alfa de
0,05, sem existir, no entanto, estudos prévios que embasem a possibilidade
disto ocorrer, o que reduz consideravelmente o seu tamanho amostral. Em
seguida, há o relato de que o desfecho primário foi mudado após o
estudo ter iniciado, devido à falta de registros em literatura de desfechos em
cirurgia cardíaca. Com relação aos resultados, fica clara a não superioridade
da vasopressina com relação ao desfecho morte e à maioria dos eventos graves. O que se
observa, é uma redução total do defecho primário no grupo vasopressina em relação
a norepinefrina ( 48 pacientes no grupo vasopressina (32,2% , IC 95%, 24,7 a
39,7) e 74 pacientes do grupo norepinefrina (49,0%; IC95%, 41,0 a 57,0)), mas às
custas apenas de uma menor incidência de lesão
renal aguda no primeiro grupo.
Na
avaliação do desfecho secundário, também não houve diferença estatisticamente
significante entre as drogas, exceto pela menor incidência de fibrilação atrial
e a permanência hospitalar e em UTI (1 dia em média), no grupo vasopressina.
Sendo assim, levando em consideração os custos das drogas e a efetividade de
ambas na elevação da pressão arterial e da resistência vascular sistêmica,
acredito que seria mais adequado conceber a vasopressina como um agente
alternativo ou adicional na terapia do choque vasoplégico.
Propor redução absoluta de 30%, empiricamente, é sugerir um NNT de 3,3 a favor do grupo Vasopressina, parece no mínimo surreal!
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